Por vezes ouvia música. Só ela ouvia música; aliás, era ela que escolhia, mentalmente, as músicas que ouvia, ouvia secretamente essas músicas. E dançava com essas músicas; dançava com os olhos, com movimentos de cabeça, com os braços. Podia estar a ouvir pessoas e estar, ao mesmo tempo, a dançar essas músicas. Dançava; às vezes, por dentro de si mesma.
se eu morrer ontem e você por acaso acordar hoje cedo com vontade de chorar chore não esquece ... não vou estar por perto e ninguém vai reparar ouça um samba do adoniran ou do paulo vanzoline coloque um vestido indiano não passe de 2 dry martines pra coisa não desandar pense que vivi o bastante pra quem viveu por engano como um sincero farsante poeta não fui dos piores menos príncipe mais sapo alaranjei meus horrores se eu morrer ontem diga aos interessados que os convites para o enterro estão todos esgotados. Júlio Saraiva
Ainda que mal pergunte, ainda que mal respondas; ainda que mal te entenda, ainda que mal repitas; ainda que mal insista, ainda que mal desculpes; ... ainda que mal me exprima, ainda que mal me julgues; ainda que mal me mostre, ainda que mal me vejas; ainda que mal te encare, ainda que mal te furtes; ainda que mal te siga, ainda que mal te voltes; ainda que mal te ame, ainda que mal o saibas; ainda que mal te agarre, ainda que mal te mates; ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio, me salvo e me dano: amor. Carlos Drummond de Andrade
Interessas-te por essa estranha debilidade que os outros curam, o ritmo secreto da vacilação. A tua loucura bate de áspero entusiasmo. Tens uma perigosa ciência -sabes ? É que vês, revês, prevês, tresvês. Andas sempre para a frente e para trás, páras e corres, e ficas tenso ouvindo e vendo, com a loucura toda a trabalhar. És sensível - demoníaco. ... Herberto Hélder
agora eu era linda outra vez e tu existias e merecíamos noite inteira um tão grande amor
agora tu eras como o tempo despido dos dias, por fim vulnerável e nu, e eu era por ti adentro eternamente ... lentamente como só lentamente se deve morrer de amor valter hugo mãe
Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te. Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te. Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te. Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te. Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te. ... Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te. Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te. José Luís Peixoto
Acompanhada. É assim que os abraços nos fazem sentir. Lembras-te, que nunca mais te sentiste assim. E que aquele momento era de ambos, e que não se podia explicar, porque não pertence ao reino das palavras. Rodrigo Guedes de Carvalho